Escrevi em tempos que me encontrava presa a uma alma ou um corpo que me impediam de ser, fazer, enfim, realizar tudo o que quero...
Acho hoje em dia que a minha verdadeira prisão nunca foi o corpo, nunca foi o estar presa a mim que me impediu... Andei cega pelo medo, pela vida que se metia à minha frente e não me deixava ver absolutamente mais nada a não ser as responsabilidades, os abandonos, os impedimentos reais e acho que alguns até imaginários...
Segui sozinha e cega por uma vida que essa sim acho que não devia ser a minha (foi trocada algures por uma qualquer entidade que se acha engraçadinha), sem ver que não precisava de seguir sozinha... Esse pesadelo acho que já acabou... Acho que posso voltar a confiar... Mas isto é só uma desconfiança...
De olhos mais abertos que o costume, acho que consigo ver com mais clareza o Guernica, estar mais atenta e ver mais do que formas cúbicas e cores carregadas... Bem longe de me ver rodeada das Meninas de Avignon (a tal história da curiosidade matou o gato...) e de finalmente me ter conseguido livrar da persistência das memórias (guardando, é claro, uma beleza sarcasticamente derretida no bolso), acho que finalmente sou capaz de me libertar dos meus mentores da filosofia e começar a criar os meus conceitos e deixar Kafka repousar no seu leito de loucura...
As linhas que escrevo já há muito que deixaram Florbela a sofrer sozinha com as suas rosas amarelas, Bocage nos seus devaneios boémios e Camões no seu enjoo das Descobertas... Depois de tudo isto sinto-me eu e só eu, com todas as influências que fizeram de mim (genética, física e psicologicamente) o que sou mas eu e utilizando um quase cliché dos nossos tempos, mantendo-me absolutamente original, única...
Com um pouco de tudo e todos que cruzam ou cruzaram na minha existência mas diferente de tudo que já se viu, sigo...E as decisões começam a surgir...
Lineares e concretas, medrosas mas corajosas à espera do momento certo para explodir na cara de todos (sim, esses gritos em mim não mudam...)!
A ver vamos o que reserva o futuro a esta triste e leda madrugada...
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